
O relato de um homem comum que poderia ter vivido um amor extraordinário.
“Quando eu a conheci eu era uma pessoa carinhosa, sonhadora, atenciosa, um pouco irresponsável e inconseqüente... mas com um coração enorme e puro, cheio de amor pra dar.
E como dei amor a ela... Me encantei com a sua beleza, sua personalidade, seus olhos grandes cor de nutella (aaah... meus filhos teriam que herdar aquele olhar!). E assim vivemos um grande amor, fizemos planos e nos amamos de uma forma que eu nem achava que fosse possível amar alguém. Com ela, eu me sentia completo... ela despertava o melhor de mim.
O tempo se passou e com ele veio o meu amadurecimento, as responsabilidades surgiram e se tornaram latentes em minha vida... acho até que perdi um pouco da minha jovialidade e espontaneidade. Tudo começou a ficar mais pesado.
Fiquei imerso no meu próprio mundo e aquele grande amor para mim se tornou não algo secundário, mas algo muito abaixo disso... se tornou mais uma obrigação para cumprir.
Ao pensar assim a respeito do meu amor eu, automaticamente, já tinha esquecido porque que estávamos juntos... parecia que não era eu quem tinha me apaixonado por ela e a amado tanto. Parecia que de mim, nascia um outro EU: um EU diferente e indiferente; um EU egoísta; um EU mais competente e responsável; um EU mais estudioso...um EU que eu achava que era o meu verdadeiro EU, um EU que eu julgava ser melhor.
Então, resolvi abandonar de vez aquele meu primeiro EU, bobo e apaixonado; aquele EU que não precisava de motivos para sorrir; aquele EU que sabia onde estava o verdadeiro tesouro da vida... Então, inevitavelmente, junto com este EU, se foi também o meu amor. Ela partiu por não mais reconhecer em mim o grande amor da sua vida.
Hoje, com 37 anos, eu vejo como errei... eu consegui ter e ser tudo o que, aparentemente, sempre quis: sou um profissional renomado e respeitado, bem de vida... nada material me falta. Casei, tive um filho, me separei, e hoje não tenho relacionamentos que durem mais do que uma noite. Hoje enxergo nitidamente que o meu verdadeiro EU era o primeiro... e eu amargo o fato de ele ter sido engolido pelo EU que eu mesmo elegi para se passar por verdadeiro.
Sabe... tem noites em que eu abro uma garrafa de vinho, aquele vinho bem vagabundo, e fico a pensar nela... no meu grande amor... por onde ela andaria? Ela com certeza estaria muito feliz e bem casada, com o casal de filhos que sempre quis ter... e eu penso em como eu queria fazer parte desse quadro... como eu queria ser ainda o amor da vida daquela mulher... como eu queria que ela me esperasse em casa, cheia de amor, de carícias... com os olhos grandes cor de nutella grudados na janela...
Ai como fui estúpido! Hoje vejo que a amei mais do que a qualquer outra, e que ela me amou mais do que sequer imaginei ser amado. Um dia ela me disse que seria capaz de dar a própria vida por mim... e eu sequer fui capaz de conciliar os meus anseios pessoais com o grande amor que vivíamos. Eu que me achava tão maduro vejo que, na verdade, fui um fraco.
A vida está passando, o mundo está girando... mas da verdadeira fonte de vida – o amor verdadeiro – eu fugi há anos atrás. Despedi-me do meu grande amor sem saber que um dia, tudo o que mais quereria seria para ele voltar...
Agora, só me resta imaginar... “